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O ESTADO DE S.PAULO - 03/10/2006
Fundação pagará proprietário que proteger mananciais em SP
Iniciativa da O Boticário propõe pagamento por serviços ambientais, sistema
adotado em outros países
Sérgio Duran
Projeto da
Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, lançado hoje à noite em evento da
Fundação Getúlio Vargas, na capital, fará a região metropolitana de São Paulo
entrar numa espécie de era moderna da preservação. Nesta era, proprietários de
terra em áreas de proteção aos mananciais, muitas vezes tachados de criminosos
por causa da devastação, são tratados como 'produtores de água' que recebem
incentivos para manter intatas as nascentes.
Batizada de Projeto Oásis, a iniciativa propõe pagar os proprietários de
terrenos de uma região que abrange a Represa Guarapiranga e parte da Billings
para que os mantenham intocados. A área incluída (veja quadro ao lado) abrange
municípios como São Paulo, Embu, Cotia e Itapecerica da Serra.
Quem possuir terreno com o equivalente a nove campos de futebol (10 hectares)
poderá receber R$ 4 mil anuais.
O pagamento pelos 'serviços ambientais' - nome que se dá à prática proposta pelo
Projeto Oásis - é uma política que vem ganhando espaço em países como Austrália
e Estados Unidos. Em São Paulo, cidades como Embu isentam do pagamento de IPTU
proprietários que conservam seus terrenos. 'Esses instrumentos de fomento, de
incentivo econômico para restauro ambiental, preenchem uma lacuna da lei de
mananciais, de 1976, que acabou provocando indiretamente a devastação da área',
disse Carlos Bocuhy, ambientalista da organização Billings Te Quero Viva.
Bocuhy ficou sabendo da iniciativa pela reportagem. 'É formidável que isso
ocorra', afirmou.
A lacuna a que se refere o ambientalista diz respeito às restrições impostas
pela lei que instituiu como área de proteção os mananciais da região
metropolitana. 'Ao restringir muito o uso dos terrenos, a legislação não previu
a desvalorização fundiária e o desinteresse dos proprietários por um lote onde
não se pode fazer nada, o que acabou levando ao abandono e às invasões. Por
isso, o pagamento por serviços ambientais é visto com tanta importância.' O
diretor de Mobilização da organização S.O.S. Mata Atlântica, geógrafo Mário
Mantovani, elogiou a iniciativa ao receber informações sobre o plano e ressaltou
que o poder público desempenha papel tímido no pagamento pelos serviços
ambientais. 'Esses proprietários são produtores de água, e são tratados de outra
forma', disse.
EMERGÊNCIA
Segundo a diretora-executiva da Fundação O Boticário, Maria de Lurdes Nunes,
foram mapeadas cerca de 200 propriedades na região do projeto, na fase de
diagnóstico, que poderão participar do Oásis. Na primeira fase, de implantação,
estimada em cinco anos, o projeto prevê investir R$ 6 milhões no pagamento de
incentivos - 50% dos quais assumidos pela própria Fundação O Boticário.
O restante deverá ser captado com outras empresas. Para isso, contou a
diretora-executiva, foi montado um inédito embasamento jurídico para o programa,
que inclui um estatuto próprio, registrado em cartório, no qual estão
estabelecidas as regras de análise da conservação dos terrenos inscritos.
O fato de incluir parte pequena da Billings levou Bocuhy a criticar o projeto.
'Eu não o conheço para poder analisá-lo, mas a qualidade de iniciativas como
essa passa pela delimitação da região a ser incluída.' Maria de Lurdes
justificou, afirmando que a Fundação teve de priorizar áreas dentro da região
metropolitana. 'Você não dá conta de fazer tudo. Hoje, todas as questões
ambientais são urgentes, mas a Guarapiranga está em uma espécie de UTI.
Por isso, houve esse direcionamento. E também não está descartada a hipóteses de
ampliarmos a área de abrangência do projeto', disse.
A área do Oásis inclui, além da represa do entorno da Guarapiranga, as áreas de
proteção ambiental de Capivari-Monos e Bororé-Colônia. De acordo com o
levantamento da Fundação, as nascentes dessa região - de 90 mil hectares, sendo
quase 50% cobertas por vegetação natural - abastecem cerca de 4 milhões de
pessoas.
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